Tanto a Orthoceratologia (Ortho-K) quanto a cirurgia refrativa podem reduzir a dependência de óculos ou lentes de contato durante o dia, mas fazem isso de maneiras completamente diferentes.
A Ortho-K utiliza lentes especiais, geralmente durante o sono, para produzir uma remodelação temporária e reversível da córnea.
Já as cirurgias refrativas corneanas modificam a córnea cirurgicamente, com o objetivo de produzir uma correção refrativa de longa duração.
Por isso, não existe uma opção universalmente melhor. São estratégias diferentes, indicadas para perfis e objetivos diferentes.
Neste artigo, quando falamos em cirurgia refrativa, estamos nos referindo principalmente às técnicas corneanas atualmente utilizadas, como PRK, LASIK e procedimentos de extração lenticular por pequena incisão, como o SMILE.
Qual é a principal diferença entre Ortho-K e cirurgia refrativa?
A principal diferença é a reversibilidade.
Na Ortho-K, o formato da córnea é temporariamente modificado pelo uso regular das lentes. Quando o tratamento é interrompido, a córnea retorna progressivamente ao seu formato anterior e o erro refrativo volta a se manifestar.
Na cirurgia refrativa corneana, ocorre uma modificação permanente da estrutura da córnea para alterar seu poder óptico.
Isso não significa, porém, que o resultado refrativo permanecerá obrigatoriamente igual durante toda a vida.
Os olhos continuam envelhecendo e podem ocorrer mudanças de grau, presbiopia, catarata ou outras alterações que façam o paciente voltar a precisar de correção visual no futuro.
Como funciona a Ortho-K?
A Ortho-K utiliza lentes rígidas gás-permeáveis de desenho especial, geralmente usadas durante o sono.
A interação entre lente, lágrima e córnea produz uma remodelação temporária principalmente da camada mais superficial da córnea, modificando seu poder óptico.
Pela manhã, as lentes são retiradas e muitos pacientes conseguem passar o dia enxergando sem óculos ou lentes de contato.
A Ortho-K é utilizada principalmente para miopia, mas existem também desenhos específicos para correção da hipermetropia em pacientes selecionados.
Em crianças e adolescentes míopes, existe ainda outro objetivo importante: a Ortho-K pode ser utilizada como uma das estratégias para reduzir a progressão da miopia e o crescimento axial do olho.
Como funciona a cirurgia refrativa?
A cirurgia refrativa procura corrigir erros como miopia, hipermetropia e astigmatismo por meio de procedimentos que modificam o poder óptico do olho.
Entre as técnicas corneanas atualmente utilizadas estão PRK, LASIK e procedimentos de extração lenticular por pequena incisão, como o SMILE, cada um com indicações, vantagens e limitações específicas.
A escolha da técnica depende de vários fatores, como:
- tipo e quantidade do grau;
- idade;
- estabilidade da refração;
- espessura e formato da córnea;
- topografia e tomografia corneana;
- superfície ocular;
- estilo de vida;
- expectativas do paciente.
Não basta, portanto, ter determinado grau para ser candidato à cirurgia.
Crianças e adolescentes: Ortho-K ou cirurgia?
Aqui a diferença é clara.
Cirurgia refrativa corneana não é uma estratégia para o controle da miopia infantil. Em crianças e adolescentes, o olho ainda pode estar crescendo e o grau pode continuar se modificando.
Quando existe miopia em progressão, a preocupação não é apenas proporcionar boa visão naquele momento, mas também tentar reduzir a velocidade de crescimento axial do olho.
Por isso, quando falamos em uma criança míope, a comparação entre Ortho-K e cirurgia refrativa nem sempre faz sentido: os objetivos são diferentes.
E para um adulto?
Em adultos, as duas possibilidades podem entrar na conversa, dependendo do caso.
Um adulto que deseja passar o dia sem óculos pode preferir uma alternativa reversível e não cirúrgica, mantendo o uso de Ortho-K.
Outro paciente pode preferir considerar uma opção cirúrgica e apresentar características adequadas para cirurgia refrativa.
É preciso avaliar a estabilidade do grau, a córnea, a superfície ocular e as expectativas do paciente antes de definir qual estratégia faz mais sentido.
A cirurgia refrativa garante visão perfeita para sempre?
Não. Na maioria dos pacientes adequadamente selecionados, os resultados podem permanecer muito bons e estáveis por muitos anos.
Entretanto, o olho continua envelhecendo e mudanças como presbiopia, alterações do cristalino, catarata ou novas alterações refracionais podem fazer com que o paciente volte a precisar de correção visual.
Além disso, a cirurgia modifica de forma permanente a geometria e as propriedades biomecânicas da córnea.
Em uma parcela dos pacientes podem surgir ou permanecer alterações como grau residual ou recorrente, astigmatismo irregular, aumento de aberrações ópticas e piora da qualidade visual, mesmo quando a acuidade visual medida na tabela parece boa.
Mais raramente, pode ocorrer ectasia pós-cirurgia refrativa, situação em que a córnea sofre afinamento e deformação progressivos, levando ao aumento da miopia e do astigmatismo irregular.
Quando essas irregularidades não são adequadamente corrigidas por óculos, lentes de contato especiais, principalmente rígidas corneanas ou esclerais, podem ser necessárias para criar uma superfície óptica mais regular e melhorar a qualidade da visão.
Por isso, é mais correto dizer que a cirurgia refrativa busca reduzir a dependência de óculos e lentes em pacientes adequadamente selecionados, e não garantir visão perfeita ou independência de correção para o resto da vida.
A Ortho-K é permanente?
Não. Essa é justamente uma de suas principais características.
Enquanto as lentes são utilizadas regularmente, o efeito sobre a córnea é mantido. Se o tratamento é interrompido, a córnea retorna progressivamente ao seu formato anterior.
Na maioria dos pacientes, recomendamos o uso das lentes todas as noites para obter um resultado mais estável e previsível.
Algumas pessoas conseguem permanecer uma ou até duas noites sem utilizá-las e ainda manter boa visão, mas isso varia individualmente e não deve ser usado como regra.
Qual opção oferece menos riscos?
Não existe uma resposta simples, porque os riscos são diferentes.
A Ortho-K não envolve cirurgia, mas exige o uso noturno de lentes de contato. Isso significa que higiene rigorosa, ausência de contato com água e acompanhamento periódico são fundamentais. A complicação mais preocupante, embora pouco frequente, é a infecção da córnea.
A cirurgia refrativa evita a necessidade do uso contínuo de lentes para manter seu efeito, mas envolve um procedimento cirúrgico e possui seus próprios riscos e possíveis efeitos adversos, que variam conforme a técnica utilizada.
Entre eles podem estar olho seco, halos, glare, alterações da qualidade visual, infecção e, mais raramente, ectasia corneana em pacientes predispostos.
Por isso, a comparação não deve ser simplesmente "qual é mais segura?", mas qual opção apresenta uma relação adequada entre benefícios e riscos para aquele olho e aquele paciente.
E quem tem ceratocone?
Ceratocone e outras ectasias corneanas mudam completamente essa decisão.
A Orthoceratologia convencional é contraindicada em pacientes com ceratocone.
Da mesma forma, cirurgias refrativas corneanas convencionais, como PRK, LASIK e SMILE, não são indicadas em córneas com ceratocone ou outras ectasias.
Esses pacientes precisam de uma estratégia específica para sua condição, levando em consideração tanto a estabilidade da córnea quanto a melhor forma de reabilitar a visão.
Por isso, a avaliação criteriosa da topografia e da tomografia corneana antes de qualquer procedimento refrativo é fundamental.
Uso Ortho-K hoje. Posso fazer cirurgia refrativa no futuro?
Pode ser possível. Usar Ortho-K não significa que o paciente nunca poderá realizar cirurgia refrativa no futuro.
Entretanto, existe um detalhe muito importante: a Ortho-K modifica temporariamente o formato da córnea.
Por isso, antes de avaliar corretamente uma possível cirurgia refrativa, as lentes precisam ser suspensas por tempo suficiente para que a córnea retorne ao seu formato habitual e permaneça estável.
Esse período varia entre os pacientes e pode levar semanas ou, em alguns casos, meses.
A cirurgia não deve ser planejada enquanto refração, topografia ou tomografia ainda estiverem se modificando após a suspensão da Ortho-K.
Somente depois dessa estabilização é possível avaliar adequadamente se o paciente realmente é candidato a algum procedimento refrativo.
Como decidir?
Antes de pensar em "Ortho-K ou cirurgia?", é melhor responder algumas perguntas:
- Qual é a idade do paciente?
- O grau está estável ou ainda está mudando?
- Existe necessidade de controle da progressão da miopia?
- A córnea é saudável e apresenta formato e espessura adequados?
- O paciente prefere uma estratégia reversível ou deseja considerar um procedimento cirúrgico?
- Quais são suas expectativas em relação à independência dos óculos?
A resposta a essas perguntas ajuda a definir quais possibilidades realmente fazem sentido.
Considerações finais
Orthoceratologia e cirurgia refrativa podem reduzir a dependência de óculos durante o dia, mas não devem ser vistas como duas versões do mesmo tratamento.
A Ortho-K é não cirúrgica, temporária e reversível, exige uso regular das lentes e pode ainda ter papel no controle da progressão da miopia infantil.
A cirurgia refrativa corneana produz uma modificação permanente da córnea e é considerada principalmente em adultos com refração estável e olhos adequados ao procedimento.
Nenhuma das duas opções deve ser escolhida apenas pela conveniência de "ficar sem óculos".
A melhor estratégia é aquela compatível com a idade, a saúde da córnea, o comportamento do grau, as necessidades visuais e as expectativas de cada paciente.